Quarto Princípio das Leis Herméticas: Polaridade

De onde viemos, para onde vamos? Entre as duas perguntas mais possivelmente feitas pela humanidade, ficam as dúvidas subjacentes acerca do Universo, de todas as forças que o compõem e dos mecanismos por meio dos quais ele opera.

Quem pode nos trazer essa resposta de forma contemplativa e reflexiva é a Filosofia Hermética. É nela que reside a base de todas as coisas, em todos os planos – físico, mental e espiritual. E é ela que contém os Sete Princípios Herméticos. O quarto desses princípios – o da Polaridade – é o tema de nosso artigo.

Duas faces da mesma moeda. Medo e coragem. Mal e bem. Início e fim. Tudo coexiste com um oposto. Assim como uma pilha, tudo tem seu polo. Para que a energia se equilibre, é preciso conectar os lados opostos. Assim funcionam as coisas. Não há nada sem seu par e, assim, nada sem equilíbrio.

Dentro de nós trazemos essa “bipolaridade”. Não somos perfeitamente bons, assim como não somos unicamente maus. Mas aquilo que vibramos para os outros depende do nosso estado de espírito. Se vibramos em nós o que é ruim, vibraremos ao outro na mesma frequência.

Precisamos estar cientes dessa dualidade, mas mais cientes ainda de que um polo não anula o outro. Pelo contrário, um justifica o outro. Não podemos falar de alegria sem que ela signifique a não tristeza. Só podemos definir a riqueza porque temos a pobreza para comparar. E vice-versa. Assim, nossos dois polos jamais deixarão de existir. Temos nossas lutas, nossas batalhas, traumas e melhorias a resolver.

No entanto, é de nossa única responsabilidade saber qual lado da moeda vamos oferecer. E aí, imprescindivelmente, serão necessários o primeiro e o segundo princípios. O poder do nosso estado mental vai canalizar o que pensamos, e a nossa capacidade de vibrar na frequência do amor vai ditar o nosso grau de evolução. Só então podemos oferecer o lado adequado da moeda.

Caso não saibamos lidar com essa bipolaridade – que, a propósito, é bastante natural em todas as coisas –, nunca teremos a sensibilidade de diferenciar sentimentos – até mesmo amor e ódio. Os opostos estão na mesma régua: à medida que descemos o nível de um, vamos nos aproximando do outro, como se fosse um botão de volume.

Se baixarmos o volume da bondade, por exemplo, estaremos nos aproximando da maldade, e vice-versa. Mesmo que haja meras percepções do grau, para termos uma pista sobre “quem é quem”, a possibilidade de elevação nos permite saber lidar melhor com tudo isso, até mesmo para lidarmos com o outro.

A Polaridade e a religião

Ilustração de duas figuras representando um anjo e um demônio

Não caberia aqui falar de uma religião especificamente. Mas, com base em uma máxima filosófica seguida por religiões de várias matrizes, e até mesmo pelo espiritismo – que não é necessariamente uma religião –, haverá uma prova de que essa polaridade tem uma grande repercussão no Universo. E acontece em escala, atingindo uma abrangência gigantesca.

Essa máxima, cuja autoria é atribuída ao filósofo e político irlandês Edmund Burke, diz assim: “Para que o mal triunfe, basta que os bons cruzem os braços”. Isso significa um desbalanço de proporções arrasadoras. Se os bons não estiverem em consonância com seus opostos (os maus), esse “botão de volume” da maldade tende a aumentar, e o resultado desse equilíbrio é o estado atual do mundo em que vivemos (miséria, fome, violência, egoísmo, falta de empatia e amor ao próximo, entre outros).

Correlação com a ciência

Ilustração de um ímã atraindo moedas.

A Polaridade também está presente em diversos campos científicos. A própria pilha, sobre a qual falamos mais acima, é um exemplo disso. O lado negativo precisa estar conectado a um polo positivo, e vice-versa. Só então a pilha faz um mecanismo funcionar.

As ligações iônicas também são um tipo de polaridade. Por essa razão, toda substância que se origina desse tipo de ligação é considerada polar, pois sua formação se origina da interação entre cátions e ânions. Logo, apresenta polo negativo e positivo.

No “Caibalion”

Capa do livro

O “Caibalion” é a obra de referência para entendermos os princípios herméticos. Publicado em 1908, com autoria atribuída ao pseudônimo Os Três Iniciados, o “Caibalion” reúne os Sete Princípios Herméticos, com uma discussão bastante aprofundada.

A obra faz parte de um conjunto maior de ensinamentos místicos, nos quais residem os fundamentos e desdobramentos da filosofia criada por Hermes Trismegisto.

Assim o “Caibalion” define, na íntegra, o Princípio da Polaridade:

"Tudo é duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados."

- O CAIBALION -

Esse Princípio encerra a seguinte verdade: tudo é duplo; tudo tem dois polos; tudo tem o seu oposto – formando um velho axioma hermético. Ele explica os velhos paradoxos, que deixaram muitos homens perplexos, e que foram estabelecidos assim: a tese e a antítese são idênticas em natureza, mas diferentes em grau; os opostos são a mesma coisa, diferindo somente em grau; os pares de opostos podem ser reconciliados; os extremos se tocam; tudo existe e não existe ao mesmo tempo; todas as verdades são meias-verdades; toda verdade é meio falsa; há dois lados em tudo etc. etc.

Ele explica que em tudo há dois polos ou aspectos opostos, e que os opostos são simplesmente os dois extremos da mesma coisa, consistindo a diferença em variação de graus. Por exemplo: o calor e o frio, ainda que sejam opostos, são a mesma coisa, e a diferença que há entre eles consiste simplesmente na variação de graus dessa mesma coisa.

Olhai para o vosso termômetro e vede se podereis descobrir onde termina o calor e começa o frio! Não há coisa de calor absoluto ou de frio absoluto; os dois termos – calor e frio – indicam somente a variação de grau da mesma coisa, e que essa mesma coisa que se manifesta como calor e frio nada mais é que uma forma, variedade e ordem de vibração.

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O calor e o frio são unicamente os dois polos daquilo que chamamos “calor”; e os fenômenos que daí decorrem são manifestações do Princípio de Polaridade.

O mesmo princípio se manifesta no caso da luz e da obscuridade, que são a mesma coisa, consistindo a diferença simplesmente nas variações de graus entre os dois polos do fenômeno. Onde cessa a obscuridade e começa a luz? Qual é a diferença entre o grande e o pequeno? Entre o forte e o fraco? Entre o branco e o preto? Entre o perspicaz e o néscio? Entre o alto e o baixo? Entre o positivo e o negativo?

O Princípio de Polaridade explica esses paradoxos, e nenhum outro princípio pode excedê-lo. O mesmo princípio opera no plano mental. Permita-nos tomar um exemplo extremo: o do amor e do ódio, dois estados mentais totalmente diferentes em aparência. Apesar disso, existem graus de ódio e graus de amor, e um ponto médio em que usamos os termos de forma tão igual ou desigual, que eles se encobrem mutuamente e de modo tão gradual, que às vezes temos dificuldades de conhecer o que nos é igual, desigual ou nem um, nem outro. Todos são simplesmente graus da mesma coisa, como compreendereis se meditardes um momento. E, mais do que isso (coisa que os hermetistas consideram de máxima importância), é possível mudar as vibrações de ódio em vibrações de amor, na própria mente de cada um de nós e nas mentes dos outros.

Muitos de vós, que ledes estas linhas, tiveram experiências da transformação do amor em ódio ou do inverso, quer isso se desse convosco, quer com outros. Podeis, pois, tornar possível a sua realização, exercitando o uso da vossa vontade por meio das fórmulas herméticas. Deus e o diabo são, pois, os polos da mesma coisa, e o hermetista entende a arte de transmutar o diabo em Deus por meio da aplicação do Princípio de Polaridade.

Em resumo, a Arte de Polaridade fica sendo uma fase da Alquimia Mental, conhecida e praticada pelos antigos e modernos mestres hermetistas. O conhecimento desse princípio habilitará o discípulo a mudar a sua própria polaridade, assim como a dos outros, se ele consagrar o tempo e o estudo necessários para obter o domínio dessa arte.

Simplificando essa definição profunda, temos aqui que tudo se apresenta em pares de opostos. E que oposto aqui não é diferente, mas a mesma coisa – em graus diferentes. O que vai definir A de seu oposto B é o grau; a intensidade de A ou B para que um e outro existam. Para que coexistam, há de haver equilíbrio e conhecimento, pois quem sabe andar pela luz também terá que saber transitar pelas trevas.

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